quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A um amigo que nunca mais vi.

Cara,
faz tempo que não nos vemos,
nunca mais nos encontramos.
Lembra de quando nos conhecemos,
de cara quisemos ser amigos -
na verdade nunca deixamos -
sempre a tagarelarmos sobre o mundo,
um tanto incompreendidos,
sempre a discutirmos sobre livros,
um tanto barrigudos,
sempre a dissecarmos teorias,
um tanto bichos-grilo,
sempre dispostos a não dar fim,
um tanto afortunados,
o que sempre nos consideramos,
por termos encontrado
o complemento no outro, cheios de esquisitices,
o complemento no um, cheio de rabugices,
ao fato de dar fim ao que chamamos de amigos sem fim.
Sempre gostamos de nos ver e de rir muito juntos,
talvez quando já sejamos defuntos
é que voltemos a compreender,
o bem que fazia a recíproca companhia,
um do outro e o outro de um.
Então, daqui vai um oi, e aí, como vai?
Não sei se sabes, mas já sou pai, perdi cabelos, aliás, muitos cabelos,
A calva ilumina os passos da saudade que tenho de nós,
das brincadeiras, dos discursos, das fórmulas de química,
da amizade que gostaria de voltar a ter,
do violino que tocavas enquanto ao piano eu delirava
da hora bestial em que cada um para sua casa ía,
e das manhãs que se repetiam
enquanto um e outro ao telefone combinavam:
o que vamos fazer neste dia?
Então, respirávamos e numa frase só repetíamos:
O que fizemos ontem, faremos amanhã.
Vamos jogar bola hoje.
Ser feliz é hoje!
Amanhã é amanhã!

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